Cristina Ribeiro Villaça[1] – UFJF
La mémoire est essentiellement conservatrice, le souvenir est destructeur.
Walter Benjamin
Em seu artigo “Memoria y tradición”, o escritor argentino Ricardo Piglia diz que “os fragmentos e os tons de outras escrituras voltam como recordações pessoais”[2]. Tal procedimento assemelha-se à estrutura dos sonhos onde restos perdidos reaparecem às vezes com mais nitidez que as recordações vividas. Podemos dizer que as Memórias de Pedro Nava seguem esse processo na medida em que o Memorialista trabalha com fragmentos de outras vozes e segue os rastros de uma tradição perdida.
Como definir a memória? Nava, ao escrever memórias, está também interessado em construir conceitos, seguindo a linha dos escritores-críticos Baudelaire, Proust, Valéry, Machado de Assis, para citarmos apenas alguns, para quem a literatura está sempre a serviço da crítica. O leitor de Baú de Ossos às vezes se depara com passagens em que o narrador dá uma pausa na narrativa da história para explicar os mecanismos da memória e se explicar como narrador de memórias.
Para o artista, a matéria de trabalho é justamente o atemporal, o eterno, a soma do tempo, o desde sempre, da mesma forma, para o escritor de memórias, a matéria é o passado que também se transforma em soma do tempo em eterno. Entretanto, o passado só pode ser revisitado a partir do presente. Assim, o Memorialista busca re-significar o passado e tentar revivê-lo através de sua escrita. Rastreando pistas camufladas, deixando falar outras vozes, consultando documentos ou complementando as lacunas com sua imaginação, na tentativa de resgatar o passado perdido, Nava percorre os caminhos da memória e transita entre o esquecer e o lembrar.
Uma primeira questão se coloca: por que Nava decidiu escrever suas memórias? Para “guardar recordações familiares e não deixar que fossem esquecidas”[3], para evocar o passado ou ainda para preencher a vida tornada vazia depois da aposentadoria; ou, mais provavelmente, por todas essas razões. O fato é que, ao envelhecer e aposentar-se como médico, Nava põe-se a escrever, voltando a se dedicar à literatura:
Quando fui envelhecendo para a medicina e os clientes rareando, resolvi voltar à minha literatura da mocidade. Fazer o quê? Numa geração que já tinha dado em Minas Drummond, João Alphonsus, Emílio Moura. Romance? Numa geração que tinha dado o mesmo João Alphonsus e Ciro dos Anjos? (...) Resolvi: vou contar a história de toda essa gente de cambulhada. Foi assim que me sentei à minha máquina de escrever (...)[4]
Nava sempre se considerou o arquivista da família e foi o fato de colecionar documentos, objetos, fotografias e papéis que lhe permitiu dar início às Memórias. “Sem esse arquivo, eu não teria podido completar a história de minha família materna e seria impossível o Baú de Ossos”[5].
Para Nava, escrever memórias significa reconstruir o passado com a ajuda de dados do presente, romper com o encadeamento cronológico da matéria rememorada e assumir um descompromisso com o relatório verídico. Na verdade, ele reivindica para si mesmo a condição de escritor memorialista que pratica a sua arte em terreno híbrido. Nava define o escritor de memórias como aquele que sabe ficcionalizar a matéria recordada:
Para quem escreve memórias, onde acaba a lembrança, onde começa a ficção? Talvez sejam inseparáveis. Os fatos da realidade são como pedra, tijolo-argamassados, virados parede, casa, pelo saibro, pela cal, pelo reboco da verossimilhança-manipulados pela imaginação criadora (...) Só há dignidade na recriação. O resto é relatório (...)[6]
Se, por um lado, a memória representa “guardar e conservar” a história de uma época, por outro, ela tem uma função libertadora:
(...) lembrando estamos provocando esquecimento. Depois de escrito, o que foi ressuscitado estará, então, definitivamente morto. Tenho experimentado isto com a evocação de personagens que me eram odiosos e que depois de fixados por mim no físico que me desagradava, no procedimento que me revoltou – como que falecem na minha lembrança e até adquirem, quando reaparecem, um aspecto indiferente e às vezes quase tolerável.[7]
Deste modo, ao ressuscitar seus mortos através da escrita, o Memorialista estará, de certa forma, enterrando-os. Libertar-se dos fantasmas significa, pois, além de matar um passado, uma possibilidade de, ao rever os outros, rever a si próprio. Na passagem citada, ao rever as pessoas, Nava reconstrói o passado e dá oportunidade de vir à luz o que ficou recalcado. Esse procedimento remete-nos ao ensaio de Freud “O estranho”, cujo termo significa “algo familiar e há muito esquecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo da repressão”[8].
Para Nava, o texto representa o espaço possível para dar vida novamente ao que estava morto e onde os antigos fantasmas vão aos poucos sendo exorcizados. As Memórias funcionariam, portanto, como oportunidade de revide, na medida em que a escrita é utilizada como arma de desabafo:
Meus rancorizados passam a me pertencer como pertenci a eles no preciso instante em que me ofenderam, humilharam e fizeram sofrer minha infância. Vivos ou mortos eu tenho de suprimi-los, o que faço ferindo pela escrita – já que esta é a arma que me conferiu a natureza.[9]
Re-significar o passado através da linguagem possibilita liberar o que estava oculto e “praticar ato de amor com inimigos – fazendo a terapêutica cirúrgica de seu esquecimento”. Segundo Freud, essa simbolização pode ter um valor catártico:
É na linguagem que o homem encontra um substituto ao ato, substituto graças ap qual o afeto pode ser ab-reagido quase da mesma maneira. Em outros casos, é a própria palavra que constitui o reflexo adequado, sob a forma de lamentação ou como expressão de um segredo (confissão).[10]
A linguagem pode servir também como instrumento para o memorialista: “Tenho dois temores, a lembrança do passado e o medo do futuro. Pelo menos um, a lembrança do passado, é anulado pela catarse de passá-lo para o papel”.[11] Esse procedimento de Nava remete ao termo grego catharsis que significa purificação. Segundo Laplanche e Pontalis, na catarse, “o efeito terapêutico buscado é o de uma ‘purgação’, uma descarga adequada dos afetos patogênicos, permitindo ao sujeito evocar e mesmo reviver os acontecimentos traumáticos aos quais esses afetos estão ligados e ab-reagi-los”[12].
Entretanto, o processo catártico funciona para Nava apenas como desabafo e não como cura, pois, ao escrever sobre seus desafetos, não chega a transformar o ódio em amor, mas vai “extirpá-los, amputá-los e erradicá-los”[13] no intuito de esquecê-los através da escrita.
Se, como vimos, em alguns momentos, a memória tem a capacidade de trazer à tona, em outros, ao contrário, ao invés de lembrar, ela faz esquecer:
No que se precisa esquecer, nisto, a memória é exímia. Desvia na hora certa (...) Duas coisas sucedem ou são feitas no mesmo dia. Entretanto o tempo passa desigual sobre cada. Ao fim de anos, uma parece remota e a outra lateja presente e quando o acaso de nota tomada, de diário escrito, mostra-as do mesmo dia – ficamos varados de pasmo (...) É por isto que Proust dizia que nossa memória habitualmente não dá lembranças cronológicas: - ... mais comme um reflet où l’ordre des parties est renversée...[14]
Transitando entre esses dois pólos, o resgate do passado, no entretanto, sempre representa uma falta, pois nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido. Tal processo é, às vezes, doloroso e exige muita paciência e persistência do escritor de memórias, pois não depende da sua vontade: “(...) às vezes não adianta violentar e querer lembrar. Não vem. A associação de idéias parece livre, solta, mas há uma coação que a compele e que também nos defende”[15].
Se por um lado “lembrar provoca o esquecimento”, como deseja o Memorialista, por outro, “esquecer é fenômeno ativo (...) – esquecer é capítulo da memória (...) e não sua função antagônica”[16]. O esquecimento funciona, aqui, como um véu protetor que busca evitar a dor e o sofrimento, o que nos leva a retomar e completar a citação acima: “(...) a memória é exímia. Desvia na hora certa e suprime o couro, para evitar o divã de couro empapado de lágrimas”.[17]
Tal afirmativa coaduna-se ao texto de Freud “Além do princípio do prazer” onde ele estabelece uma correlação entre a memória (entendida como memória involuntária) e a consciência. Segundo Freud, a “resistência do ego consciente e inconsciente funciona sob a influência do princípio de prazer; ela busca evitar o desprazer que seria produzido pela liberação do reprimido”[18]. Para Nava, o prazer de escrever é misturado com a angústia pois, “fazer memórias é um ato extremamente sofrido. Não é um deleite. É torturante a evocação de duendes, coisas passadas. Não é agradável remexer no baú de ossos”[19]. Nesses momentos, a memória age como o aparelho psíquico e exerce uma função protetora. Segundo Reik, “enquanto a memória tem por função proteger as impressões, a lembrança visa a desintegrá-las. A memória é essencialmente conservadora, ao passo que a lembrança é destruidora”[20].
O texto de Nava representa assim um espaço fronteiriço e vai ser construído, por um lado, a partir de fragmentos de imagens adormecidas que o memorialista precisa tirar do esquecimento e, por outro, pelas lembranças, “espécies de relíquias secularizadas que emergem incessantemente de experiências já mortas no tempo para celebrar o auto-retrato de uma época”[21]. Em oposição às imagens, as lembranças costumam expressar “alguma coisa que vai se deteriorando ao longo dos anos, suplemento de um passado que afundou na memória em rigidez cadavérica”[22].
O trabalho de restauração do memorialista que constrói seu texto com “restos” esquecidos e parte do fragmento para recompor o passado é semelhante ao processo da memória que também é sempre facetada ou, nas palavras de Ecléa Bosi, “é um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento.”[23] O universo das Memórias seria assim “um universo em pedaços, cujos pedaços contêm outros universos, também eles, por sua vez, em pedaços.”[24]
O memorialista parte, assim, do inacabado: o que ficou do vivido, resíduos do tempo, guardados da memória – baú de ossos. E é com esses fragmentos do passado que ele recompõe a “vasta e emaranhada” paisagem que é impossível completar.[25] Para reconstituir o passado, feito de lembranças fragmentárias que dele restaram, Nava aproxima-se da anatomia comparada e da paleontologia: “A mesma de Cuvier partindo de um dente para construir a mandíbula inevitável, o crânio obrigatório, a coluna vertebral decorrente e, osso por osso, o esqueleto da besta”.Estende em seguida o paralelo à atividade do arqueólogo: (...)que da curva de um pedaço de jarro conclui de sua forma restante (...)”[26]
O memorialista procede, na expressão de Arrigucci, como um “artesão da memória” modelando com os fatos acontecidos a face do passado. Recompondo a partir de fragmentos da memória o passado, Nava tenta preencher os silêncios, os vazios, dando voz a outros, acumulando documentos, fotografias, relatos, costurando seu texto com os artifícios que a experiência da leitura/escritura lhe ensinaram a usar.
Toda história contada é objeto de uma construção que se faz a partir de uma coleção de imagens, de fragmentos originários de sonhos, dos desejos dos seres humanos por onde se expressa a vida de uma época:
Um olhar lançado na direção do tempo, em permanente deslocamento, do presente para o passado, da fugacidade do evento para sua transformação em memória, do anonimato de uma vida privada para a redescoberta do brilho antigo que vem do mundo dos homens.[27]
Assim, seguindo os vestígios do passado, o memorialista parte em busca das recordações fugazes que deslizam aos pedaços. Cabe a ele compor, no corpo da escrita, o esqueleto que só lhe vem fragmentado, partido, aos pedaços.
Se, como diz Proust, “os verdadeiros paraísos são os paraísos que perdemos para sempre”, é na sua recriação, seguindo os caminhos da memória que os reencontraremos. Ao se propor a resgatar o passado, Nava vai também em busca de seu “paraíso perdido”. Entretanto esse desejo nunca se realiza porque todo ato de recordar transfigura as coisas vividas e o que retorna não é o passado na sua totalidade, mas suas imagens gravadas na memória e ativadas por ela num determinado presente, imagens e lembranças que serão complementadas pela imaginação e pelas leituras da arte, da Literatura, da Política, da Sociologia, informações suplementares que tentarão preencher as lacunas do esquecimento.
Esse processo de restauração do passado, no qual o memorialista reconstrói intencionalmente, uma coerência perdida de que sobrou algum elo o qual ele tenta resgatar, foi muito bem evocado por Paul Ricoeur. Segundo o pensador, “rastros são vestígios de passagens, mas que permanecem como restos que remetem a dois registros temporais heterogêneos”[28]. Se por um lado, o rastro funciona como substituto, devendo ser um sinal deixado por alguma coisa no presente, cujo contexto passado não existe mais; por outro lado, o rastro existe apenas para quem considera tal sinal como signo presente de uma coisa ausente, como o vestígio de uma passagem que também não existe mais. “Seguir um rastro – ou escrever memórias – significa efetuar a mediação entre o não-mais da passagem e o ainda do signo: o passado não é só negativamente o que acabou, mas o que foi e o que, por ter sido, é preservado no presente”[29].
Referências Bibliográficas:
ARRIGUCCI, Davi. Móbile da memória. In: Enigma e comentário. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.
BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire. Trad. Jean Lacoste. Paris: Editions Payot, 1979.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
Entrevista a Estácio Medeiros. Suplemento Cultural de O Estado de São Paulo, nº 156, 5 de junho de 1983.
Entrevista à revista Status, janeiro de 1977, pp. 11-16.
FREUD, Sigmund. O estranho. In.: Obras Completas. Trad. Jaime Salomão. São Paulo: Imago, 1976.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. In: Obras Completas. São Paulo: Imago, 1974. 1ª ed., vol. XVIII.
Jornal da Bahia. Salvador, 04 de agosto de 1976.
LAPLANCHE, Jean et PONTALIS, J.B. Vocabulaire de la Psychnalyse. Paris: PUF, 1967.
MIRANDA, Wander Mello. A poesia do reesvaziado. In: Cadernos da escola do legislativo 4. Belo Horizonte: julho/dezembro de 1995.
NAVA, Pedro. Baú de ossos. Rio de Janeiro: Editora Sabiá Ltda., 1972.
NAVA, Pedro. Balão cativo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
NAVA, Pedro. Beira mar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
NAVA, Pedro. Círio Perfeito. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.
NAVA, Pedro. Território de Epidauro. Rio de Janeiro: Cândido Mendes Júnior, 1947.
PIGLIA, Ricardo. Memória y tradición. Anais do II Congresso da Abralic. Belo Horizonte: UFMG, 1991.
POULET, Georges. O espaço proustiano. Trad. Ana Luiza B. Martins Costa. Rio de Janeiro: Imago, 1992.
STARLING, Heloísa Maria Murgel. Prefácio. In: Imagens do Grande Sertão. Belo Horizonte: Ed. UFJF/UFMG, 1998.
[1] Mestranda em Letras-Teoria da Literatura pela Universidade Federal da Juiz de Fora
[2] PIGLIA,1990,P.60.
[3] Entrevista à revista Status, janeiro 1977, pp.11-16.
[4] Entrevista a Estácio Medeiros, O Estado de São Paulo, Suplemento cultura, n.156, 5 jun.1983.
[5] NAVA, 1878, p.13.
[6] NAVA, 1977, p.288.
[7] NAVA, 1978, p.199.
[8] FREUD, 1976, p.301.
[9] NAVA, 1978, 199.
[10] LAPLANCHE E PONTALIS, 1967, p.161.
[11] NAVA, 1983, p.412.
[12] LAPLANCHE PONTALIS, 1967, p.60.
[13] NAVA, 1947, p.199.
[14] NAVA, 1972, p. 304.
[15] Idem.
[16] Ibidem.
[17] Ibidem.
[18] FREUD, 1974, p.33.
[19] Jornal da Bahia, Salvador, 4 de agosto 1976.
[20] BENJAMIN, 1979, p. 156.
[21] STARLING, 1998, p. 40.
[22] STARLING, 1998, p.41.
[23] BOSI, 1998, p. 39.
[24] POULET, 1992, p. 41.
[25] ARRIGUCCI Jr., 1987, p.83.
[26] NAVA, 1972, p. 41.
[27] STARLIN,
[28] MIRANDA, 1995, p. 112.
[29] Idem